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Mostrando postagens de maio, 2026

Por que alguns comportamentos de grupos evangélicos podem ser considerados etnocêntricos?

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O etnocentrismo é um fenômeno social que ocorre quando um grupo toma seus próprios valores, crenças e práticas como medida universal para julgar outras culturas. A partir dessa perspectiva, tudo o que se afasta do seu padrão é visto como errado, inferior ou desviado. Ao analisar certos comportamentos presentes em alguns grupos evangélicos, não todos, mas parte deles, é possível identificar atitudes que se enquadram nesse conceito sociológico. Em primeiro lugar, muitos grupos religiosos trabalham com a ideia de verdade absoluta. Quando uma doutrina é compreendida como a única forma legítima de interpretar o mundo, torna-se comum que outras crenças sejam vistas como equivocadas ou moralmente inferiores. Esse tipo de postura, ainda que não intencional, expressa uma visão etnocêntrica, pois coloca a própria tradição religiosa como referência universal para avaliar todas as demais. Além disso, práticas missionárias que buscam converter pessoas de outras religiões podem, em alguns contex...

RESSENTIMENTO OU CHOCOLATE: A ESCOLHA É SUA

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A psicoterapia tem a capacidade de nos conduzir aos rincões do ser, despertando os mais diversos afetos, sensações, pensamentos, conclusões, alívios e dores. No meu caso, a responsável por tudo isso é a Cinthia, minha psicoterapeuta, que divide comigo essa doideira que acontece ao longo de cerca de cinquenta minutos de sessão, dentro de uma sala que, para mim, tem a dimensão do universo. A inquietação da vez é a seguinte: sou uma pessoa ressentida. Levei esse incômodo à psicóloga e, logo de início, avisei que não sei bem o que é ressentimento. Peço licença ao caro leitor para recorrer à prerrogativa de mestre e tentar refletir, nas próximas linhas, sobre o que seria esse tal ressentimento. Em um primeiro momento, podemos dizer que “ressentimento” aponta para a ideia de sentir de novo, sentir intensamente — talvez o maior problema de quem faz terapia, ou mesmo o motivo que leva alguém a buscá-la —, ou até mesmo sentir algo que retorna e permanece. Note, caro leitor, que o prefixo ...

ARAUTOS EM TEMPOS DE PROFANAÇÃO

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Jesus, depois de ressuscitado, apareceu aos discípulos durante quarenta dias. Antes de subir ao céu, repreendeu seus seguidores, lembrando-lhes a incredulidade com que receberam as notícias de suas aparições. Em seguida, ordenou que fossem por todo o mundo e pregassem o evangelho. A ordem de Jesus foi direta, quase como um sopro que empurra alguém para fora da porta: Ide. Não havia margem para hesitação. O imperativo do Nazareno abriu diante dos discípulos uma estrada longa, imprevisível e cheia de riscos, mas também carregada de sentido. A partir daquele envio, iniciou-se uma jornada que atravessou cidades, desertos, portos e sinagogas. Onde chegavam, o evangelho ganhava voz; vidas eram transformadas, famílias eram batizadas, enfermos se levantavam, milagres se tornavam testemunho vivo. No entanto, junto com a luz vinha a sombra: perseguições, prisões, fugas às pressas, noites insones. Ainda assim, nada deteve o avanço daquela chama recém‑acesa. Toda essa travessia, feita de cor...

ENQUANTO A IA TRABALHA, EU SURTO: NOTAS DE RODAPÉ DE ALGUÉM QUE PERDEU PARA O ALGORITMO

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Já devo ter entrado na crise da meia‑idade. Só isso explica essa sensação de ter virado o brinde vagabundo que vem no fundo do pacote — aquele que ninguém pediu, ninguém usa e ainda ocupa espaço. Que somos descartáveis, eu sempre soube; só não imaginava que o Deus faria questão de esfregar isso na minha cara com tanta dedicação. Agora, as IAs da vida resolveram me roubar justamente o que eu jurava ser meu diferencial: a inteligência, a capacidade de processar informações, a destreza, o faro, a sagacidade… todo aquele kit premium que me colocava num pedestal de intelectual. Pedestal esse que, descobri, era mais frágil que mesa de plástico de boteco. A IA — essa criatura com a autoconfiança de certos homenzarrões que se acham irresistíveis — tem uma capacidade ampla, mas nada de mágica, como os famosos tadalafilas. Consegue entender e gerar texto, raciocinar sobre problemas, buscar informações, interpretar contexto, ajudar em tarefas práticas, e criar imagens. Todavia, no fim das con...

A MENTE DE CRISTO EM TEMPO DE POLARIZAÇÃO

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Você, caro leitor, pode até não apreciar Karl Marx; porém, parece‑me que ele já vislumbrava a polarização que vivemos hoje no Brasil quando, no século XIX, afirmou que a sociedade capitalista é estruturada por conflitos entre classes com interesses opostos. De um lado, a burguesia controla os meios de produção; de outro, o proletariado vende sua força de trabalho. Note que essa oposição gera uma polarização estrutural, não apenas econômica, mas também cultural e ideológica. Marx afirmou que a classe dominante molda a ideologia, isto é, as narrativas que parecem naturais, mas servem a interesses específicos. Nesse sentido, a sociedade é atravessada por conflitos materiais e espirituais que se expressam como conflitos políticos e culturais. A polarização brasileira recente não é apenas sobre partidos ou eleições. Ela envolve espiritualidade, desigualdade econômica histórica, disputas por identidade e valores, narrativas concorrentes sobre justiça, moralidade e futuro, além de ressent...

DEUS PAI-MÃE TODO PODEROSO: UMA HOMENAGEM ÀS MÃES

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O verbo gerar provém do latim generare (“produzir, fazer nascer”) e deriva da raiz indo‑europeia gen- , associada às ideias de nascimento, produção e origem. Embora verbos não apresentem flexão de gênero, o ato de gerar, em termos culturais e biológicos, está tradicionalmente relacionado ao corpo feminino e, por extensão, à maternidade. Observa-se, contudo, que essa associação simbólica não determina o gênero gramatical das palavras: maternidade é um substantivo feminino; parto é masculino; gestar é verbo, portanto sem gênero; e útero é masculino. Tal articulação entre aspectos linguísticos, culturais e simbólicos pode ser identificada, por exemplo, em narrativas teológicas que descrevem a criação da humanidade pela Trindade. Moisés narra, em Gênesis 1.26–27, que Pai, Filho e Espírito Santo se reúnem para criar a humanidade; isto é, a Trindade concebe e realiza simultaneamente o ato criador. A descrição permite identificar um aspecto simbólico que alguns autores interpretam com...

O SOTAQUE SINTÁTICO DAS MÁQUINAS

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O SOTAQUE SINTÁTICO DAS MÁQUINAS Quando Deus condenou a humanidade por causa do pecado de Adão, a mim coube cumprir a pena de ser escritor. Tal cruz é sobremodo pesada, e quem diz que escrever é prazeroso está mentindo. O gozo causado pela escrita é doído. O resultado pode até ser legal — eu, particularmente, sempre espero que seja. Ultimamente tenho lido textos impecáveis, tão bons que sou tomado pela certeza de que foram escritos — não apenas corrigidos — por Inteligência Artificial. Existe uma diferença — ainda que sutil — na forma como nós, brasileiros, estruturamos nossas frases e como os gringos estruturam as deles. A diferença mais marcante entre a construção das frases em inglês americano, frequentemente reproduzidas pelas IAs, e a do português não é apenas vocabular; é também cultural, sintática e até pragmática. O uso desenfreado de travessões denuncia que determinado texto foi escrito por IA. Brasileiro não sabe usar o travessão direito. O uso do travessão pelos americ...

FREUD 170 ANOS DEPOIS: A PSICANÁLISE QUE AINDA NOS LÊ

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  Se estivesse vivo, Sigmund Freud completaria hoje 170 anos. Ele nasceu no então Império Austro-Húngaro, na cidade de Freiberg, em 6 de maio de 1856. Recém-formado, tornou-se neurologista; no entanto, voltou-se ao estudo dos distúrbios psíquicos após observar o uso da hipnose por Charcot e Breuer. A psicanálise freudiana nasce justamente do fracasso do método hipnótico. Freud criou a psicanálise, que se tornou, ao mesmo tempo, uma teoria da mente, um método clínico baseado na fala e na interpretação e uma ferramenta cultural para compreender a arte, a religião, a sociedade e o comportamento humano. Ele também transgredia suas próprias regras, mostrando que a psicanálise tem vida própria e, por isso, viceja sempre viva e pulsante. Aproximei-me da psicanálise e, consequentemente, do Dr. Freud, por causa da teoria do desamparo, que para ele é a condição fundamental do ser humano ao nascer. A dependência absoluta do recém-nascido em relação ao outro é necessária tanto para a sobre...

A PAZ DE JESUS

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Em João 14, Jesus está na noite anterior à crucificação, conversando intimamente com os discípulos. Eles estão angustiados porque Ele havia anunciado Sua partida. Contudo, nesse mesmo cenário, Jesus promete o Consolador (o Espírito Santo), reafirma Sua união com o Pai e, por fim, orienta os discípulos a não se perturbarem, pois Sua ausência física não significava abandono. No versículo 27, Jesus faz uma das maiores declarações de amor que já vi: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou (...)”. Note, caro leitor, que essa paz não era qualquer paz; era a paz do próprio Jesus — uma paz diferente. Ele estava preparando os discípulos para aquilo que em breve aconteceria, e o fez oferecendo-lhes a Sua paz A paz de Jesus tem sua ênfase no sujeito da ação — no próprio Cristo. Perceba, portanto, que essa paz não é um estado emocional autogerado; é uma outorga graciosa do Senhor, fruto de Sua graça soberana. Diferentemente dos efeitos produzidos pelos psicofármacos, a paz de Jesus não depende d...