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Mostrando postagens de março, 2026

ERIKA É ERIKA E HILTON É HILTON

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Rodrigo Perez, doutor em História Social pela UFRJ, publicou um artigo na Folha de S. Paulo intitulado “Esquerda acumula derrotas em guerra cultural sobre o que significa ser mulher e misoginia”, no qual, entre outros pontos, defende a legitimidade de Erika Hilton — deputada federal trans — para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, fundamentando-se em argumentos das teorias de gênero. O debate sobre “o que é uma mulher?” foi reacendido. Perez, assim como setores da esquerda, buscou consolidar o conceito de “mulheridade” como a forma de expressar o feminino, enquanto “mulher” designaria a pessoa, um grupo social concreto. É necessário, porém, esclarecer que não é papel das ciências sociais elaborar conceitos que ultrapassem o domínio dos fatos sociais. As ciências sociais têm legitimidade para formular conceitos, mas apenas quando estes derivam da análise dos fenômenos sociais. Não lhes cabe produzir categorias normativas, ontológicas ou met...

ANGÚSTIA: AFETO QUE ATRAVESSA A CONTEMPORANEIDADE

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Um dos afetos que mais compartilho com a maioria dos intelectuais com quem tenho a oportunidade de conversar é a angústia. Ela se tornou um afeto dominante da contemporaneidade e, paradoxalmente, uma das chaves para compreender o nosso tempo. Não é exagero dizer que a angústia se transformou quase em um “clima emocional” coletivo, algo que atravessa indivíduos, instituições, relações e até a própria cultura. Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han são pensadores que mostram que a liberdade contemporânea é paradoxal – por isso, angustiante -, pois no tempo presente temos infinitas escolhas, porém, quase nenhuma garantia e poucas referências sólidas. Isso produz um tipo de angústia que não é medo de algo específico, mas vertigem diante do possível. Kierkegaard já dizia que a angústia é o “tonturar-se da liberdade”. Hoje, essa tontura virou rotina. Já as redes sociais criamos um ambiente onde todos se comparam com todos, a vida vira vitrine, a validação é instantânea e volátil, e o “eu” se torna ...

JANTAR ENTRE AMIGOS

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No sábado anterior à Páscoa, Jesus foi cear na casa de seus amigos — Marta, Maria e Lázaro. João, em seu evangelho, fez questão de lembrar que Lázaro havia sido ressuscitado por Jesus de Nazaré. Não obstante ser o Cristo, é interessante notar que Jesus dispensa formalidades, ritos e rituais. Jesus come com a gente, simplesmente. Quando o visitante chegou, Marta tratou de ir logo para a cozinha; Lázaro sentou-se à mesa com Jesus; e Maria prostrou-se aos pés do Mestre. A ação de cada irmão revelava uma característica. Marta era aquela que sempre estava pronta para servir. Lázaro, aquele que recebeu ajuda, demonstrou sua gratidão sentando-se junto de Jesus. Maria, uma pecadora consciente, perfumou os pés do Mestre com um perfume muito caro e os enxugou com o próprio cabelo. Jesus não está interessado em nossas condições, limitações ou pecados; para Ele, o importante é estar junto. Judas Iscariotes, que mais tarde traiu Jesus e que, segundo João, era ladrão, reprovou a atitude de Maria...

SOBRE OS LOMBOS DE UM JUMENTINHO

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  Antes de sua morte, Jesus fez uma série de visitas a Jerusalém. Quando estava em Betfagé – uma aldeia situada entre Betânia e Jerusalém – pediu a dois discípulos que trouxessem um jumentinho e a sua mãe. Aqueles animais eram emprestados; a presença da jumenta acalmaria o filhote, que nunca havia sido montado. A entrada de Jesus em um jumentinho contrapunha a entrada triunfal dos reis pelos portões de Jerusalém. Na tradição do Antigo Oriente, reis e generais vitoriosos faziam entradas triunfais montados em cavalos, símbolos de poder militar, conquista e dominação. Em Jerusalém, isso não era diferente: a cidade já tinha visto governantes e conquistadores atravessarem seus portões com pompa, escoltas armadas e demonstrações de força. Jesus faz exatamente o oposto. Mateus, que escreveu seu evangelho com a intenção de mostrar que Jesus cumpriu a Lei e os Profetas, ao narrar esse ato, destaca o cumprimento de Zacarias 9.9, que descreve um rei justo, humilde e portador da paz. Assim...