ERIKA É ERIKA E HILTON É HILTON
Rodrigo Perez, doutor em História Social pela UFRJ, publicou um
artigo na Folha de S. Paulo intitulado “Esquerda acumula derrotas em
guerra cultural sobre o que significa ser mulher e misoginia”, no qual, entre
outros pontos, defende a legitimidade de Erika Hilton — deputada federal trans
— para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos
Deputados, fundamentando-se em argumentos das teorias de gênero.
O
debate sobre “o que é uma mulher?” foi reacendido. Perez, assim como setores da
esquerda, buscou consolidar o conceito de “mulheridade” como a forma de
expressar o feminino, enquanto “mulher” designaria a pessoa, um grupo social
concreto. É necessário, porém, esclarecer que não é papel das ciências sociais
elaborar conceitos que ultrapassem o domínio dos fatos sociais.
As
ciências sociais têm legitimidade para formular conceitos, mas apenas quando
estes derivam da análise dos fenômenos sociais. Não lhes cabe produzir
categorias normativas, ontológicas ou metafísicas que excedam o escopo empírico
das relações sociais. Do mesmo modo, não é sua função realizar análises de
ordem biológica: seu objeto são os fatos sociais, e seus métodos se voltam para
a interpretação das relações, instituições, práticas e significados construídos
coletivamente.
Dessa
forma, a determinação dos critérios biológicos que distinguem os sexos é
responsabilidade das ciências biológicas. As ciências sociais podem — e devem —
analisar os significados sociais atribuídos à categoria “mulher”, mas não podem
redefinir seus fundamentos biológicos. O equívoco está em assumir uma
legitimidade que não lhes compete.
No
plano político-social e regimental, não há impedimento para que uma deputada
trans assuma a presidência da comissão mencionada. A presidência da Comissão de
Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara não exige qualquer critério biológico,
identitário ou de gênero: ela se orienta exclusivamente pelas regras
regimentais e pelas negociações políticas internas da Casa. O cargo é definido
pela proporcionalidade partidária e pela eleição interna do colegiado, não por
requisitos sobre quem “pode” ou “não pode” ser mulher.
Por
fim, o autor encerra seu artigo afirmando que “a esquerda está acumulando
prejuízos eleitorais com essa situação, tornando-se cada vez mais objeto de
desconfiança da população”. Esse desgaste decorre, em grande medida, da
apropriação de uma legitimidade que não pertence à esquerda, tampouco às
ciências sociais.
#FatosSociais
#EpistemologiaCrítica
#CiênciasSociais
#DebateSobreGênero
#Mulheridade
#LimitesDoConhecimento
#BiologiaESociedade
#DisputaDeNarrativas
#CrônicaPolítica
#ReflexãoSocial
#PolíticaIdentitária
#Representatividade
#ComissãoDosDireitosDaMulher
#DiscussãoNecessária
#OpiniãoComConteúdo

Comentários
Postar um comentário