Postagens

Mostrando postagens de abril, 2026

A BÊNÇÃO DE NÃO SER LEMBRADO

Imagem
José sempre chegava cedo. Não porque alguém o buscava, mas porque precisava calcular o tempo do ônibus, das calçadas irregulares, das pausas para descansar a perna que insistia em não obedecer. Chegava, sentava no mesmo banco — não por apego, mas porque ninguém nunca o convidava para outro. Os cultos aconteciam ao redor dele como chuva fina: molhavam todos, menos José. Os irmãos se abraçavam, trocavam notícias, combinavam almoços. Ele sorria quando alguém passava perto, mas o sorriso voltava intacto, sem resposta, como carta devolvida ao remetente. Quando faltou pela primeira vez, ninguém percebeu. Na segunda, também não. Na terceira, o pastor comentou que “alguns têm esfriado na fé”, sem imaginar que José estava apenas com febre e sem forças para enfrentar o trajeto sozinho. Curiosamente, foi ali que José descobriu uma bênção estranha: a de não fazer falta. Porque, na solidão involuntária, ele percebeu que sua fé não dependia de ser visto, lembrado ou celebrado. Era silenciosa, ...

QUANDO O CULTO SE TORNA ENTRETENIMENTO

Imagem
Em muitas igrejas, o culto tem assumido contornos de espetáculo. Luzes, efeitos e discursos motivacionais substituem a simplicidade reverente e a centralidade da Palavra. Surge então uma pergunta inevitável: quando o culto se torna palco para entretenimento, Deus continua sendo adorado? A tradição cristã‑reformada ensina que o culto não existe para agradar o homem, mas para obedecer a Deus conforme as Escrituras. O princípio regulador do culto afirma que só o que Deus ordenou deve ser praticado na adoração pública (Lv 10.1–3; Jo 4.24). Quando a performance domina, o olhar da congregação se volta para o palco, não para o alto. A música pode ser excelente, mas se o coração busca emoção em vez de reverência, algo essencial se perde. Esse desvio é teológico. Mensagens motivacionais podem emocionar, mas não transformam. Paulo advertiu que muitos prefeririam mestres que agradassem seus ouvidos (2Tm 4.3). Calvino lembrava que o coração humano é uma fábrica de ídolos  e o culto centrado na...

CRISE NA LIDERANÇA EVANGÉLICA E O RETORNO AO MODELO BÍBLICO DE SERVIÇO

Imagem
  Segundo noticiado pela Folha de S. Paulo , o Supremo Tribunal Federal (STF) agendou para 28 de abril de 2026 o julgamento que decidirá se torna o pastor Silas Malafaia réu por calúnia, injúria e difamação contra generais do Exército. A denúncia da PGR, motivada por falas em que ele chamou militares de “frouxos” e “covardes”, será analisada presencialmente pela Primeira Turma, após pedido de destaque feito por Cristiano Zanin. [sic] Historicamente, líderes religiosos sempre estiveram envolvidos em polêmicas e, no Brasil, chefes da Igreja Lagoinha ganharam destaque no caso do Banco Master. A percepção de que a liderança evangélica está em baixa está relacionada a diversos fatores críticos, incluindo escândalos morais, desvios doutrinários, comportamento centrado em celebridades e vínculos com setores financeiros. Assim, a liderança cristã atual enfrenta crises de integridade e a necessidade de retornar ao modelo de serviço, em detrimento do expansionismo e da busca por poder. U...

A MESMA VELHA HISTÓRIA

Imagem
Quando a igreja cristã começou, um dos motivos pelos quais sofreu perseguição foi a recusa em prestar culto ao imperador. Esse princípio foi herdado do judaísmo, pois nos Dez Mandamentos Deus proibiu a adoração a qualquer divindade pagã. No Antigo Testamento, Deus proibiu o culto a deuses pagãos porque sabia que o ser humano tem uma facilidade quase ingênua de transformar qualquer brilho em divindade. Essa ordem funcionava como um lembrete firme: não entreguem o coração a quem não pode sustentá-lo. Era uma proteção contra a sedução de ídolos que prometiam poder, fertilidade, segurança, que no fim só desviavam o povo do essencial. Essa história, que começa lá atrás, desemboca naturalmente no que viria depois: o culto ao imperador, quando Roma exigia que homens e mulheres dobrassem o joelho diante de uma figura humana como se fosse eterna. Os mártires cristãos foram perseguidos porque se recusaram a dobrar o joelho diante do imperador, e essa recusa soava a Roma como um desafio imper...

QUANDO O PÚLPITO VIRA PALANQUE

Imagem
O caderno de política do jornal O Globo noticiou algo que me causou tristeza. Políticos passaram a visitar igrejas com objetivos claramente eleitorais. O eleitorado evangélico possui força decisiva nas urnas, e eles sabem disso. Alguns líderes manifestaram apoio de forma explícita; outros, mais cautelosos, convocaram momentos de oração. No fundo, o jogo é conhecido: o político busca votos, e o líder religioso, favores. É impossível não lembrar de Jesus de Nazaré que, após sua entrada triunfal em Jerusalém, expulsou os vendilhões do templo. Um detalhe significativo é que aquele mercado era controlado pela família de Anás, o sumo sacerdote. Jesus denunciou cambistas e vendedores de pombas como ladrões, e tudo isso ocorria sob o aval dos líderes do templo. Ao denunciar cambistas e vendedores de pombas como ladrões, Jesus expôs a aliança perversa entre fé, poder e interesse. Tudo funcionava com o aval dos líderes do templo, guardiões oficiais do sagrado que haviam transformado a casa ...