A BÊNÇÃO DE NÃO SER LEMBRADO
José sempre chegava cedo. Não porque alguém o buscava, mas porque precisava calcular o tempo do ônibus, das calçadas irregulares, das pausas para descansar a perna que insistia em não obedecer. Chegava, sentava no mesmo banco — não por apego, mas porque ninguém nunca o convidava para outro. Os cultos aconteciam ao redor dele como chuva fina: molhavam todos, menos José. Os irmãos se abraçavam, trocavam notícias, combinavam almoços. Ele sorria quando alguém passava perto, mas o sorriso voltava intacto, sem resposta, como carta devolvida ao remetente. Quando faltou pela primeira vez, ninguém percebeu. Na segunda, também não. Na terceira, o pastor comentou que “alguns têm esfriado na fé”, sem imaginar que José estava apenas com febre e sem forças para enfrentar o trajeto sozinho. Curiosamente, foi ali que José descobriu uma bênção estranha: a de não fazer falta. Porque, na solidão involuntária, ele percebeu que sua fé não dependia de ser visto, lembrado ou celebrado. Era silenciosa, ...