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Mostrando postagens de junho, 2026

A VOLTA DO SOBRENATURAL DE ALMEIDA

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O Brasil venceu o Japão por 2 a 1, mas não foi uma vitória: foi uma sessão espírita. Carlo Ancelotti, esse técnico que parece ter sido contratado não pela CBF, mas por um laboratório de alquimia, decidiu que a seleção não teria uma identidade e sim várias. Uma seleção mutante, camaleônica, capaz de trocar de pele no intervalo como quem troca de camisa. Essa multiplicidade que salvou o Brasil em Houston. O primeiro tempo foi tão sofrido que parecia escrito por um dramaturgo pessimista. O Japão, organizado como sempre, ajustou-se na parada para hidratação — porque até a água, hoje em dia, tem função tática — e encontrou um Brasil hesitante. Paquetá saiu no intervalo, machucado e melancólico, como um personagem que abandona a peça antes do terceiro ato. E então Ancelotti, com a serenidade de quem pede um café, colocou Endrick e reorganizou tudo. O Brasil virou outro. Talvez até dois outros. Bruno Guimarães, esse jogador que parece ter sido criado em laboratório para agradar técnic...

SESSÃO ORDINÁRIA, FIGURINO EXTRAORDINÁRIO

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  A 22ª Sessão Ordinária prometia ser igual a todas as outras: discursos longos, votos rápidos, e aquela coreografia silenciosa de papéis passando de mão em mão como se tivessem vida própria. Nada que tirasse o espectador da sua confortável posição de quem assiste esperando, no máximo, um tropeço no microfone. Mas naquele dia, quem roubou a cena não foi nenhum vereador inflamado, nenhum projeto urgente, nem mesmo o cidadão que sempre aparece para reclamar da lombada da rua dele. O destaque, absoluto e incontestável, foi a secretária da sessão, que entrou no plenário com uma camiseta da Seleção Brasileira e um blazer verde que parecia ter sido escolhido por alguém que acreditava que o país precisava vencer o Japão no mata-mata da Copa do Mundo de 2026, e que essa missão começava ali, na mesa de apoio da Câmara Municipal. Não era só a roupa. Era a atitude. Ela digitava com a firmeza de quem está narrando um jogo decisivo. Cada registro no sistema parecia um passe bem dado. Cada l...

O AVISO QUE FALTA

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No corredor do posto de saúde, o relógio parece andar mais devagar. A cada consulta perdida, a cada exame que não acontece porque alguém simplesmente não apareceu, o tempo público se esfarela. É um desperdício silencioso, quase invisível, mas que pesa no bolso da cidade e, principalmente, na vida de quem espera meses por uma vaga. Foi observando esse cenário que o vereador Natalino Tony Silva (PSDB) decidiu agir. Nada de discursos inflamados ou promessas grandiosas: apenas um projeto de lei simples, direto, necessário. A ideia é combater o desperdício de consultas e exames na rede municipal — um problema que não é novo, porém, que sempre foi tratado como se fosse inevitável. Natalino fez o que se espera de quem ocupa cargo público: olhou para o cotidiano e enxergou um ponto de melhoria. E, convenhamos, não é pouca coisa. Cada consulta perdida é uma oportunidade que some. É um médico esperando. É um paciente que poderia ter sido atendido. É dinheiro público que se dissolve como água na ...

UM PRESENTE PARA VOCÊ

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Ser professor me obriga a oferecer respostas, mesmo quando eu próprio não as tomo como verdade. Não preciso emitir minha opinião; basta citar as fontes. “Fulano afirmou isso”, “ciclano disse aquilo”. Afinal, o trabalho de pesquisa me exige um posicionamento, ao mesmo tempo que me permite esconder atrás da persona do professor. Isso já me rendeu vários elogios: “nossa, como você é seguro”, “ai, como você é inteligente”. Nada disso é verdade — ou, melhor dizendo, é uma verdade parcial. Sou inteligentemente inseguro. Explico: apesar das minhas inseguranças, apesar das minhas incertezas, fui adquirindo habilidades — graças à Cinthia, minha psicóloga — para me preocupar apenas com aquilo que realmente demanda atenção e cuidado. Eu não sei se estarei vivo amanhã, então vou viver da melhor maneira possível hoje. Quero que meu relacionamento dê certo, mas não sei se ele desembocará em casamento; por isso, serei o melhor namorado que eu puder ser agora. Quando for idoso, desejo ter boa saúd...

POÉTICA DO FRACASSO: O INSTANTE É TUDO O QUE RESTA

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  “Confesso que perdi” não é apenas o título da biografia do jornalista Juca Kfouri, publicada pela Companhia das Letras. A confissão é um reconhecimento declarado em voz alta — no caso de Juca, expresso pelas letras ditadas pela memória. Devo confessar: eu também perdi. Perdi porque fracassei em cada um dos meus empreendimentos — alguns por ingenuidade, outros por teimosia, todos por humanidade. Fracassei porque acreditei que ideias, por si só, poderiam mover o mundo. Mas, sem se converterem em prática, em trabalho vivo, elas se perdem. No capitalismo, tudo o que não se materializa se transforma em pó porque o sistema só reconhece o que pode ser apropriado, explorado e vendido. Perdi porque insisti, até o limite do capricho, na ideia de que o amor, por si só, sustentaria uma relação. Só depois entendi que ninguém fica apenas por amor; fica quando encontra segurança, reciprocidade e espaço para existir. E eu não ofereci isso. Malogrei minha esperança quando caí. E, no silên...

OLHA EU AQUI OUTRA VEZ!

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Hoje é dia de Santo Antônio e eu, assim como tantos outros, estou na fila para desencalhar. Afinal, por que desejamos nos relacionar e por que buscamos os relacionamentos? Permanecer solteiros não evitaria problemas indesejados? A vida a dois é realmente necessária ou tudo isso faz parte das crenças criadas pela cultura em que estamos inseridos? Os seres humanos começaram a se relacionar muito antes de inventarem promessas de amor eterno; no início, era pura sobrevivência. Juntar-se a outros significava dividir o fogo, afastar predadores e garantir comida na mesa, ou no chão batido da caverna. Com o tempo, essa convivência forçada virou estratégia: cuidar das crianças exigia mais de duas mãos, e a vida em grupo facilitava tanto o trabalho quanto o afeto. A linguagem, os rituais e as primeiras regras sociais nasceram desse convívio apertado, quase inevitável. Assim, relacionar-se deixou de ser só uma questão de não morrer sozinho no mato e passou a moldar quem somos, o que sentimos e ...