SESSÃO ORDINÁRIA, FIGURINO EXTRAORDINÁRIO

 


A 22ª Sessão Ordinária prometia ser igual a todas as outras: discursos longos, votos rápidos, e aquela coreografia silenciosa de papéis passando de mão em mão como se tivessem vida própria. Nada que tirasse o espectador da sua confortável posição de quem assiste esperando, no máximo, um tropeço no microfone.

Mas naquele dia, quem roubou a cena não foi nenhum vereador inflamado, nenhum projeto urgente, nem mesmo o cidadão que sempre aparece para reclamar da lombada da rua dele. O destaque, absoluto e incontestável, foi a secretária da sessão, que entrou no plenário com uma camiseta da Seleção Brasileira e um blazer verde que parecia ter sido escolhido por alguém que acreditava que o país precisava vencer o Japão no mata-mata da Copa do Mundo de 2026, e que essa missão começava ali, na mesa de apoio da Câmara Municipal.

Não era só a roupa. Era a atitude. Ela digitava com a firmeza de quem está narrando um jogo decisivo. Cada registro no sistema parecia um passe bem dado. Cada leitura de pauta, um lançamento preciso. Se alguém pedisse vista, ela provavelmente responderia “só se for de longe, porque o chute foi forte”.

Os vereadores tentavam manter a compostura, mas era difícil competir com aquele uniforme patriótico que, ironicamente, parecia mais preparado para uma prorrogação do que para uma sessão legislativa. Um deles, ao justificar voto, olhou rápido para ela como quem procura confirmação do VAR.

E o público, que normalmente se divide entre os que acompanham tudo e os que só estão ali porque o ar-condicionado é bom, passou a acompanhar a secretária. A cada movimento do blazer, uma expectativa. A cada ajeitada na camiseta, uma torcida silenciosa.

No fim da sessão, quando o presidente agradeceu a presença de todos, houve quem jurasse ter ouvido um “é hexa” vindo de algum canto. Pode ter sido só a imaginação coletiva, claro. No entanto, naquele dia, naquela Câmara, a democracia ganhou um toque de Copa do Mundo.

E, convenhamos, ficou bem mais divertida.


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