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A MESMA VELHA HISTÓRIA

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Quando a igreja cristã começou, um dos motivos pelos quais sofreu perseguição foi a recusa em prestar culto ao imperador. Esse princípio foi herdado do judaísmo, pois nos Dez Mandamentos Deus proibiu a adoração a qualquer divindade pagã. No Antigo Testamento, Deus proibiu o culto a deuses pagãos porque sabia que o ser humano tem uma facilidade quase ingênua de transformar qualquer brilho em divindade. Essa ordem funcionava como um lembrete firme: não entreguem o coração a quem não pode sustentá-lo. Era uma proteção contra a sedução de ídolos que prometiam poder, fertilidade, segurança, que no fim só desviavam o povo do essencial. Essa história, que começa lá atrás, desemboca naturalmente no que viria depois: o culto ao imperador, quando Roma exigia que homens e mulheres dobrassem o joelho diante de uma figura humana como se fosse eterna. Os mártires cristãos foram perseguidos porque se recusaram a dobrar o joelho diante do imperador, e essa recusa soava a Roma como um desafio imper...

QUANDO O PÚLPITO VIRA PALANQUE

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O caderno de política do jornal O Globo noticiou algo que me causou tristeza. Políticos passaram a visitar igrejas com objetivos claramente eleitorais. O eleitorado evangélico possui força decisiva nas urnas, e eles sabem disso. Alguns líderes manifestaram apoio de forma explícita; outros, mais cautelosos, convocaram momentos de oração. No fundo, o jogo é conhecido: o político busca votos, e o líder religioso, favores. É impossível não lembrar de Jesus de Nazaré que, após sua entrada triunfal em Jerusalém, expulsou os vendilhões do templo. Um detalhe significativo é que aquele mercado era controlado pela família de Anás, o sumo sacerdote. Jesus denunciou cambistas e vendedores de pombas como ladrões, e tudo isso ocorria sob o aval dos líderes do templo. Ao denunciar cambistas e vendedores de pombas como ladrões, Jesus expôs a aliança perversa entre fé, poder e interesse. Tudo funcionava com o aval dos líderes do templo, guardiões oficiais do sagrado que haviam transformado a casa ...

ERIKA É ERIKA E HILTON É HILTON

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Rodrigo Perez, doutor em História Social pela UFRJ, publicou um artigo na Folha de S. Paulo intitulado “Esquerda acumula derrotas em guerra cultural sobre o que significa ser mulher e misoginia”, no qual, entre outros pontos, defende a legitimidade de Erika Hilton — deputada federal trans — para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, fundamentando-se em argumentos das teorias de gênero. O debate sobre “o que é uma mulher?” foi reacendido. Perez, assim como setores da esquerda, buscou consolidar o conceito de “mulheridade” como a forma de expressar o feminino, enquanto “mulher” designaria a pessoa, um grupo social concreto. É necessário, porém, esclarecer que não é papel das ciências sociais elaborar conceitos que ultrapassem o domínio dos fatos sociais. As ciências sociais têm legitimidade para formular conceitos, mas apenas quando estes derivam da análise dos fenômenos sociais. Não lhes cabe produzir categorias normativas, ontológicas ou met...

ANGÚSTIA: AFETO QUE ATRAVESSA A CONTEMPORANEIDADE

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Um dos afetos que mais compartilho com a maioria dos intelectuais com quem tenho a oportunidade de conversar é a angústia. Ela se tornou um afeto dominante da contemporaneidade e, paradoxalmente, uma das chaves para compreender o nosso tempo. Não é exagero dizer que a angústia se transformou quase em um “clima emocional” coletivo, algo que atravessa indivíduos, instituições, relações e até a própria cultura. Zygmunt Bauman e Byung-Chul Han são pensadores que mostram que a liberdade contemporânea é paradoxal – por isso, angustiante -, pois no tempo presente temos infinitas escolhas, porém, quase nenhuma garantia e poucas referências sólidas. Isso produz um tipo de angústia que não é medo de algo específico, mas vertigem diante do possível. Kierkegaard já dizia que a angústia é o “tonturar-se da liberdade”. Hoje, essa tontura virou rotina. Já as redes sociais criamos um ambiente onde todos se comparam com todos, a vida vira vitrine, a validação é instantânea e volátil, e o “eu” se torna ...

JANTAR ENTRE AMIGOS

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No sábado anterior à Páscoa, Jesus foi cear na casa de seus amigos — Marta, Maria e Lázaro. João, em seu evangelho, fez questão de lembrar que Lázaro havia sido ressuscitado por Jesus de Nazaré. Não obstante ser o Cristo, é interessante notar que Jesus dispensa formalidades, ritos e rituais. Jesus come com a gente, simplesmente. Quando o visitante chegou, Marta tratou de ir logo para a cozinha; Lázaro sentou-se à mesa com Jesus; e Maria prostrou-se aos pés do Mestre. A ação de cada irmão revelava uma característica. Marta era aquela que sempre estava pronta para servir. Lázaro, aquele que recebeu ajuda, demonstrou sua gratidão sentando-se junto de Jesus. Maria, uma pecadora consciente, perfumou os pés do Mestre com um perfume muito caro e os enxugou com o próprio cabelo. Jesus não está interessado em nossas condições, limitações ou pecados; para Ele, o importante é estar junto. Judas Iscariotes, que mais tarde traiu Jesus e que, segundo João, era ladrão, reprovou a atitude de Maria...

SOBRE OS LOMBOS DE UM JUMENTINHO

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  Antes de sua morte, Jesus fez uma série de visitas a Jerusalém. Quando estava em Betfagé – uma aldeia situada entre Betânia e Jerusalém – pediu a dois discípulos que trouxessem um jumentinho e a sua mãe. Aqueles animais eram emprestados; a presença da jumenta acalmaria o filhote, que nunca havia sido montado. A entrada de Jesus em um jumentinho contrapunha a entrada triunfal dos reis pelos portões de Jerusalém. Na tradição do Antigo Oriente, reis e generais vitoriosos faziam entradas triunfais montados em cavalos, símbolos de poder militar, conquista e dominação. Em Jerusalém, isso não era diferente: a cidade já tinha visto governantes e conquistadores atravessarem seus portões com pompa, escoltas armadas e demonstrações de força. Jesus faz exatamente o oposto. Mateus, que escreveu seu evangelho com a intenção de mostrar que Jesus cumpriu a Lei e os Profetas, ao narrar esse ato, destaca o cumprimento de Zacarias 9.9, que descreve um rei justo, humilde e portador da paz. Assim...

QUEM TEM MEDO DE LOBO MAU? EU TENHO...

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  Na semana retrasada, entrei em contato com um amado irmão — que foi meu pastor nos lindos tempos da Igreja Evangélica de Pinheiros — para pedir que orasse por mim. A saúde se esvai com o passar dos dias, aumentando, proporcionalmente, as dificuldades. Não sou o que outrora fui — e graças a Deus por isso. Embora ainda tomado pelo desejo de fazer a obra do Senhor enquanto é dia, sinto-me como um soldado impedido de alistar-se. Confessei-lhe que tudo era mais fácil quando recebíamos a sua direção. À época, queríamos ouvir apenas uma voz: a de Deus. Nada tinha mais valor do que a Palavra Sagrada, e a nossa única preocupação era a direção que o Espírito Santo nos dava por meio dela. O nosso coração estava cativo à obra do Senhor. Foi tudo muito bom. O tempo passou. A liderança desse pastor passou.  Eu passei. Andávamos em unidade; agora, cada qual está em seu canto, fazendo o melhor que pode. No entanto, um louvor profético permaneceu em meus lábios: é Jesus quem vai ...