QUANDO O PÚLPITO VIRA PALANQUE
O caderno de política do jornal O Globo noticiou algo que me
causou tristeza. Políticos passaram a visitar igrejas com objetivos claramente
eleitorais. O eleitorado evangélico possui força decisiva nas urnas, e eles
sabem disso. Alguns líderes manifestaram apoio de forma explícita; outros, mais
cautelosos, convocaram momentos de oração. No fundo, o jogo é conhecido: o
político busca votos, e o líder religioso, favores.
É
impossível não lembrar de Jesus de Nazaré que, após sua entrada triunfal em
Jerusalém, expulsou os vendilhões do templo. Um detalhe significativo é que
aquele mercado era controlado pela família de Anás, o sumo sacerdote. Jesus
denunciou cambistas e vendedores de pombas como ladrões, e tudo isso ocorria
sob o aval dos líderes do templo.
Ao
denunciar cambistas e vendedores de pombas como ladrões, Jesus expôs a aliança
perversa entre fé, poder e interesse. Tudo funcionava com o aval dos líderes do
templo, guardiões oficiais do sagrado que haviam transformado a casa de oração
em espaço de negociação. A cena ecoa no presente: quando o sagrado se torna
moeda política e o templo, palco de barganhas, a indignação de Jesus continua
sendo um juízo vivo sobre toda tentativa de instrumentalizar a fé.
Segundo Jesus de Nazaré, o
templo (a igreja) é casa de oração; quando o político se coloca diante do
púlpito, o que ocorre não é mera visita institucional, mas a profanação do
sagrado. O problema não está na política em si, mas na sua invasão do espaço
que deveria permanecer reservado à pregação do evangelho.
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