ANGÚSTIA: AFETO QUE ATRAVESSA A CONTEMPORANEIDADE
Um dos afetos que mais compartilho com a maioria dos intelectuais
com quem tenho a oportunidade de conversar é a angústia. Ela se tornou um afeto
dominante da contemporaneidade e, paradoxalmente, uma das chaves para
compreender o nosso tempo. Não é exagero dizer que a angústia se transformou
quase em um “clima emocional” coletivo, algo que atravessa indivíduos,
instituições, relações e até a própria cultura.
Zygmunt
Bauman e Byung-Chul Han são pensadores que mostram que a liberdade contemporânea
é paradoxal – por isso, angustiante -, pois no tempo presente temos infinitas
escolhas, porém, quase nenhuma garantia e poucas referências sólidas. Isso produz
um tipo de angústia que não é medo de algo específico, mas vertigem diante do
possível. Kierkegaard já dizia que a angústia é o “tonturar-se da liberdade”.
Hoje, essa tontura virou rotina.
Já
as redes sociais criamos um ambiente onde todos se comparam com todos, a vida
vira vitrine, a validação é instantânea e volátil, e o “eu” se torna um projeto
de marketing. O resultado é uma angústia difusa. Quem já disse “nunca sou
suficiente”? Veja, caro leitor, esse sentimento não é patológico, conquanto
seja produzido por um sistema que exige performance.
Voltemos
a Byung-Chul Han. O filósofo fala do “sujeito de desempenho”, isto é, alguém
que se explora a si mesmo acreditando estar se realizando. Isso gera exaustão,
autoacusação, sensação de falha constante, e incapacidade de descansar. A angústia
aqui é o afeto de um mundo onde não há limites claros entre trabalho e vida.
Basta
acessar ao noticiário para se deparar com a realidade de que a
contemporaneidade é marcada por crises sucessivas (ambiental, políticas,
econômicas e de sentido). O futuro deixou de ser promessa e virou ameaça. Isso produz
uma angústia temporal: o amanhã pesa mais que hoje. A hiperconsciência produz
angústia. Alguém disse que a ignorância é uma bênção.
Se de um lado a angústia gera sofrimento, de outro, revela a necessidade de novas formas de vínculo, a busca por sentido em meio ao excesso, a urgência de desacelerar, e a vontade de recuperar o corpo, o tempo e a presença. Portanto, a angústia, paradoxalmente, é um sinal de que ainda estamos vivos e sensíveis num mundo que tenta nos anestesiar.

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