POÉTICA DO FRACASSO: O INSTANTE É TUDO O QUE RESTA
“Confesso que perdi” não é apenas o título da biografia do
jornalista Juca Kfouri, publicada pela Companhia das Letras. A confissão é um
reconhecimento declarado em voz alta — no caso de Juca, expresso pelas letras
ditadas pela memória.
Devo
confessar: eu também perdi. Perdi porque fracassei em cada um dos meus
empreendimentos — alguns por ingenuidade, outros por teimosia, todos por
humanidade.
Fracassei
porque acreditei que ideias, por si só, poderiam mover o mundo. Mas, sem se
converterem em prática, em trabalho vivo, elas se perdem. No capitalismo, tudo
o que não se materializa se transforma em pó porque o sistema só reconhece o
que pode ser apropriado, explorado e vendido.
Perdi
porque insisti, até o limite do capricho, na ideia de que o amor, por si só,
sustentaria uma relação. Só depois entendi que ninguém fica apenas por amor;
fica quando encontra segurança, reciprocidade e espaço para existir. E eu não
ofereci isso.
Malogrei
minha esperança quando caí. E, no silêncio da queda, entendi que ninguém
acompanha ninguém até o fim: cada um enfrenta o próprio absurdo, o próprio
deserto, a própria luta para continuar existindo.
Sucumbi
à lógica neoliberal, onde até o afeto se torna fluxo. Tudo escorre na liquidez
existencial: nada fixa, nada permanece. As relações seguem o ritual das redes: começam
com um clique, terminam com outro e, no meio disso, ninguém se compromete com
ninguém, porque a liberdade absoluta virou apenas mais uma forma de solidão.
Pois é. Perdi, confesso. Entretanto, a soma dos fracassos moldou o
que restou de mim. Não melhor, não pior, apenas alguém condenado ao instante,
ao aqui e agora, a existir só até onde o dia alcança.
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