ENQUANTO A IA TRABALHA, EU SURTO: NOTAS DE RODAPÉ DE ALGUÉM QUE PERDEU PARA O ALGORITMO
Já
devo ter entrado na crise da meia‑idade. Só isso explica essa sensação de ter
virado o brinde vagabundo que vem no fundo do pacote — aquele que ninguém
pediu, ninguém usa e ainda ocupa espaço. Que somos descartáveis, eu sempre
soube; só não imaginava que o Deus faria questão de esfregar isso na minha cara
com tanta dedicação.
Agora,
as IAs da vida resolveram me roubar justamente o que eu jurava ser meu
diferencial: a inteligência, a capacidade de processar informações, a destreza,
o faro, a sagacidade… todo aquele kit premium que me colocava num pedestal de
intelectual. Pedestal esse que, descobri, era mais frágil que mesa de plástico
de boteco.
A IA
— essa criatura com a autoconfiança de certos homenzarrões que se acham
irresistíveis — tem uma capacidade ampla, mas nada de mágica, como os famosos
tadalafilas. Consegue entender e gerar texto, raciocinar sobre problemas,
buscar informações, interpretar contexto, ajudar em tarefas práticas, e criar
imagens. Todavia, no fim das contas, falta-lhe justamente aquilo que nos torna
humanos: subjetividade. Esse detalhe minúsculo, irrelevante, quase
dispensável, só que não.
O
ChatGPT não tem emoções, vida própria, crise da meia‑idade (como eu), não
substitui relações humanas, não tem consciência, desejos ou ambições. É,
portanto, uma ferramenta e nem adianta tentar se passar por substituta. No
máximo, faz o papel daquele estagiário hipercompetente que sabe tudo, faz tudo,
contudo continua sendo estagiário.
Diferentemente de mim, a IA não tem crise, não fica doente, não aparece na segunda‑feira com atestado e, claro, não processa o patrão. É o sonho de qualquer empregador: trabalha sem reclamar, sem sindicato, sem café, sem pausa para respirar. Enquanto isso, nós — esses seres orgânicos, falhos e cheios de boletos — vamos nos tornando cada vez mais inúteis. Ou, como diriam os coaches, “substituíveis”.
#InteligenciaArtificial
#HumanosObsoletos
#SarcamoDigital
#EnquantoAIATrabalha
#PerdidoNoAlgoritmo

Boa noite Luis!!Essas inquietações com a IA também me assaltam. Gosto como as coloca em sua crônica. A evolução dessas tecnologias está muito rápida e nem sei o que esperar do futuro, mas também acho que estamos ficando descartáveis.
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