RESSENTIMENTO OU CHOCOLATE: A ESCOLHA É SUA


A psicoterapia tem a capacidade de nos conduzir aos rincões do ser, despertando os mais diversos afetos, sensações, pensamentos, conclusões, alívios e dores. No meu caso, a responsável por tudo isso é a Cinthia, minha psicoterapeuta, que divide comigo essa doideira que acontece ao longo de cerca de cinquenta minutos de sessão, dentro de uma sala que, para mim, tem a dimensão do universo.

A inquietação da vez é a seguinte: sou uma pessoa ressentida. Levei esse incômodo à psicóloga e, logo de início, avisei que não sei bem o que é ressentimento. Peço licença ao caro leitor para recorrer à prerrogativa de mestre e tentar refletir, nas próximas linhas, sobre o que seria esse tal ressentimento.

Em um primeiro momento, podemos dizer que “ressentimento” aponta para a ideia de sentir de novo, sentir intensamente — talvez o maior problema de quem faz terapia, ou mesmo o motivo que leva alguém a buscá-la —, ou até mesmo sentir algo que retorna e permanece.

Note, caro leitor, que o prefixo “re-” indica intensidade, repetição ou reforço, enquanto “sentir” remete ao ato de perceber pelos sentidos ou experimentar. Assim, etimologicamente, “ressentimento” significa “sentir novamente” ou “sentir de forma prolongada e profunda”. Podemos concluir, portanto, que ressentimento é uma emoção que se repete, que volta, que insiste em não se resolver.

Impossível não lembrar de Nietzsche que popularizou o termo na forma francesa “ressentiment”, associando-o a um estado psicológico marcado por sentimentos reprimidos de inveja e ódio que não podem ser expressos.

Quando penso no que seja ressentimento, não posso ignorar que esse afeto ultrapassa a esfera íntima e se derrama sobre o mundo. Maria Rita Kehl diz que vivemos uma verdadeira “era do ressentimento”, um tempo em que a queixa deixa de ser apenas um incômodo privado e passa a organizar modos de vida, discursos e até identidades. Segundo ela, o ressentimento se intensifica justamente nas democracias, onde a promessa de igualdade convive com a experiência concreta de desigualdade. É dessa fricção que nasce a sensação de injustiça que tantos carregam como se fosse uma marca pessoal, uma ferida que nunca cicatriza.

O ressentido, para Kehl, é alguém que se fixa na própria dor e a transforma em argumento. Ele se percebe como vítima de um dano que nunca é reparado e, por isso, repete a ofensa, rumina a falta, recusa o esquecimento. É uma posição subjetiva que preserva o orgulho ao culpar o outro por tudo aquilo que dói. E, enquanto isso, a vida fica suspensa: o ressentimento funciona como uma paixão triste, que diminui a potência de agir e aprisiona o sujeito numa espécie de circuito fechado de queixas e fantasias vingativas.

Kehl observa que esse afeto, antes restrito ao consultório, agora transborda para a esfera pública. Ele aparece nos debates, nas redes sociais, nas conversas de bar, nas disputas políticas. A lógica da acusação (“eu sofro, logo alguém deve ser culpado”) se tornou um modo de interpretar o mundo. E, quando a queixa vira identidade, qualquer possibilidade de transformação se perde.

Sair dessa era, diz ela, exige coragem: é preciso abandonar a posição confortável de vítima eterna e se implicar no próprio desejo. Aceitar a falta, reconhecer limites, abrir mão da fantasia de que o outro é sempre o responsável. Só assim o sujeito recupera a potência de agir e deixa de girar em torno da mesma ferida.

O barato proporcionado pela psicoterapia foi justamente esse: a inquietação não permite a comodidade. Ela cutuca, desloca, desinstala e, no fim das contas, é isso que faz a vida andar. Acho que fiz a lição de casa e, por isso, mereceria um chocolate no próximo encontro. Mas sabemos que isso não vai acontecer, porque a Cinthia come o chocolate que seria destinado aos pacientes — segredo nosso!  Até a próxima. 

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