DEUS PAI-MÃE TODO PODEROSO: UMA HOMENAGEM ÀS MÃES



O verbo gerar provém do latim generare (“produzir, fazer nascer”) e deriva da raiz indo‑europeia gen-, associada às ideias de nascimento, produção e origem. Embora verbos não apresentem flexão de gênero, o ato de gerar, em termos culturais e biológicos, está tradicionalmente relacionado ao corpo feminino e, por extensão, à maternidade. Observa-se, contudo, que essa associação simbólica não determina o gênero gramatical das palavras: maternidade é um substantivo feminino; parto é masculino; gestar é verbo, portanto sem gênero; e útero é masculino. Tal articulação entre aspectos linguísticos, culturais e simbólicos pode ser identificada, por exemplo, em narrativas teológicas que descrevem a criação da humanidade pela Trindade.

Moisés narra, em Gênesis 1.26–27, que Pai, Filho e Espírito Santo se reúnem para criar a humanidade; isto é, a Trindade concebe e realiza simultaneamente o ato criador. A descrição permite identificar um aspecto simbólico que alguns autores interpretam como expressão de um caráter materno de Deus. No Antigo Oriente Próximo — região cultural na qual o texto de Gênesis se formou — as mulheres exerciam papel predominante nos cuidados iniciais das crianças: amamentação, atenção cotidiana, proteção e educação básica eram tarefas geralmente associadas às figuras femininas. Entretanto, os homens, especialmente os pais, também desempenhavam funções educativas, jurídicas e religiosas relevantes no âmbito familiar.

Aqui não quero fazer a exegese tradicional de Gênesis 1.26-27 e sim uma leitura simbólica e teológica. Se Deus cria a humanidade “à sua imagem”, e se a humanidade inclui homem e mulher, então o feminino também reflete algo do ser de Deus. Nesse sentido, a capacidade de gerar vida (no humano), pode ser vista como um reflexo de um atributo divino. A criação indica a um ato de gestação simbólica. Note, caro leitor, a Trindade “concebendo” a humanidade expressa uma metáfora do cuidado, nutrição e origem, atributos associados culturalmente ao materno.

Definitivamente não estou afirmando que Deus seja uma mulher, pois Ele não possui gênero. No entanto, Ele cria, sustenta e age em nosso favor — especialmente na obra da salvação — de modo semelhante ao cuidado dedicado de uma boa mãe, cujo filho se orgulha de ter sido gerado e protegido por ela. Trata-se de uma analogia que busca expressar a profundidade do amor divino, e não de uma descrição literal da natureza de Deus.

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