DEUS NA SOLIDÃO DO SER
Jesus
de Nazaré acabara de tomar uma decisão urgente: obrigou os discípulos a
embarcar e ir para o outro lado. Isso aconteceu porque o povo tentara
transformá-lo em rei pela força. Depois de despedir a multidão, Jesus subiu ao
monte com o propósito de orar a sós. Mateus, em seu evangelho, narrou da
seguinte maneira: “Caindo a tarde, lá estava ele, só.” (Mateus 14.23).
Note,
caro leitor: o mesmo Jesus que ensinava e realizava milagres entre as
multidões, que vivia com os discípulos a maior parte do tempo, de quando em vez
sentia a necessidade de ficar sozinho, sem ninguém por perto, a sós com o Pai.
A oração coletiva é uma bênção para a vida comunitária e uma fonte de
edificação para a nossa espiritualidade; contudo, em alguns momentos, o lugar
da oração é solitário, ermo e quieto.
Não
bastasse a ausência de companhia preferida por Jesus de Nazaré naquele momento,
Mateus, o evangelista, deixou clara a diferença entre “subiu ao monte, a fim de
orar sozinho” e “Caindo a tarde, lá estava ele, só”. Já vimos que, nesse
trecho, o evangelho demonstra a ausência de pessoas perto de Jesus. Entretanto,
na primeira expressão, revela-se algo profundo e necessário para a
espiritualidade.
Para
“só”, Mateus usou a palavra grega mónos, que significa “sozinho”, “sem
companhia”. Ao indicar que Jesus foi “orar sozinho”, o evangelista empregou a
expressão proseúchomai idíos. Em uma tradução livre, podemos dizer que
Jesus voltou-se para dentro de si com o propósito de oferecer suas orações a
Deus.
O
mesmo Mateus, que escreveu seu evangelho para os judeus, disse-nos que o
Emanuel de Isaías 7.14 significa “Deus conosco”. Não é raro buscarmos a Deus em
alto e sublime trono; porém, não podemos esquecer que Ele está dentro de nós. É
na introspecção que o buscamos e o encontramos. Deus não está longe; está perto
e é na solidão da quietude que o percebemos.
Na
outra cena narrada pelo evangelho, temos o ousado Pedro, que, mesmo pedindo
para andar com Jesus sobre as águas, desviou seu olhar para a força do vento,
teve medo e começou a afundar. Depois disso, clamou pelo socorro de Jesus.
Jesus
olhou para dentro, enquanto Pedro desviou o olhar para a tempestade. O mundo do
lado de fora está em caos; tudo parece afundar. Entretanto, Jesus — Deus
encarnado, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem — está dentro, pronto
para ser encontrado no silêncio do nosso ser.

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