O ANTÍDOTO DE RYLE PARA O SÉCULO XXI


Certa vez, numa reunião do ministério de homens da Igreja Presbiteriana de Mogi Guaçu, defendi a tese de que o culto é um lugar de formação. Claro que a ideia não é minha, mas do filósofo cristão James K. A. Smith. O discipulado não acontece fora da igreja; ele se dá no culto público, no meio da coletividade. Também é necessário dizer que esse posicionamento não é original em mim, e sim do teólogo J. C. Ryle.

Ryle (1816–1900), bispo da Igreja da Inglaterra em Liverpool, em seu livreto Adoração: prioridade, princípios e prática, publicado pela Editora Fiel, apresenta exemplos do Antigo e do Novo Testamento, além de episódios da história da igreja, para demonstrar a importância do culto público tanto para os cristãos quanto para aqueles que estão fora da cristandade. O autor não despreza as disciplinas espirituais individuais; ainda assim, foi contundente ao afirmar que “onde não há adoração pública, ali não existe igreja de Deus, nem pessoas que professam o cristianismo”. Essa observação decorre do imperativo presente na carta aos Hebreus, que exorta os cristãos a não deixarem de congregar.

Precisamos recordar que o século XIX — período em que J. C. Ryle viveu — representou um tempo de profundas transformações e polarizações para o cristianismo, que se viu obrigado a se redefinir diante do avanço do racionalismo científico, do Iluminismo e das teorias evolucionistas. Enquanto o catolicismo reagia à perda de seu poder político na Europa, centralizando a autoridade institucional na figura do Papa, o protestantismo se fragmentava entre a modernização proposta pela teologia liberal e o fervor conservador dos reavivamentos espirituais. É verdade que hoje enfrentamos desafios diferentes; ainda assim, o resgate do texto de Ryle permanece necessário.

A transição da eclesiologia do século XIX para a realidade contemporânea revela como as transformações econômicas reconfiguraram a essência das relações humanas e da espiritualidade. Enquanto o ambiente de J. C. Ryle preservava o tecido social através de instituições sólidas, o advento do neoliberalismo promoveu uma ruptura radical ao converter a subjetividade em uma lógica empresarial de mercado. Sob essa nova égide, o cidadão foi instado a atuar como uma "empresa de si mesmo", transferindo os riscos sociais para a esfera individual e substituindo a solidariedade pela concorrência crônica, pela mercantilização da fé e pelo esgotamento psíquico.

É precisamente nesse cenário de fragmentação que a apologia de Ryle ao culto público emerge não apenas como um dever religioso, mas como o antídoto definitivo contra as patologias do individualismo moderno. Em oposição direta à racionalidade que privatiza a existência e isola o ser humano em suas próprias demandas de performance, a assembleia litúrgica corporativa restabelece o primado do comum. Ao reunir indivíduos em torno de uma mesma confissão, o culto quebra a barreira da autossuficiência, lembrando ao homem contemporâneo que a sua identidade e sobrevivência espiritual dependem umbilicalmente da interdependência e do corpo coletivo.

Portanto, o culto público atua como um espaço de resistência e subversão à ordem neoliberal ao submeter o agente competitivo à disciplina da gratuidade, da comunhão e da autonegação. Enquanto o mercado exige a otimização constante do tempo e a vigilância produtiva, o altar comunitário oferece o repouso sagrado e a igualdade radical, onde os status econômicos são dissolvidos. Ao resgatar a densidade dos laços institucionais e o compromisso mútuo, a eclesiologia clássica oferece a cura para a solidão e o desamparo psíquico gerados pela atomização social do século XXI.


 

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