ESPIRITUALIDADE ENCARNADA


A nossa formação intelectual é, em grande medida, greco-romana. Lemos e interpretamos o mundo através dessas lentes e não há nada de errado com isso. O problema surge quando tentamos ler escritores que não enxergam a realidade a partir dessa mesma matriz filosófica.

Veja: no que diz respeito à antropologia bíblica, nós, cristãos, insistimos em interpretar o corpo sob a ótica de Platão, desrespeitando a visão integrada que o judaísmo tem do ser humano. Os gregos viam o homem como uma estrutura tripartida e em constante conflito interno. Já na tradição judaica, o ser humano não é fragmentado em partes que lutam entre si. Nas próximas linhas, caro leitor, vou provocar você a enxergar o seu próprio corpo de um jeito completamente diferente.

No judaísmo, a criação do corpo humano é um ato sagrado. Logo após a criação, o autor de Gênesis faz a seguinte observação: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1.31). O texto bíblico jamais sugere que a nossa matéria é inferior, enganadora ou corrupta. Ao contrário: a totalidade do ser humano é fruto direto da bondade de Deus.

A despeito da influência platônica, o corpo é o lugar onde a espiritualidade acontece: uma espiritualidade encarnada. O apóstolo Paulo corrobora essa visão ao escrever em Romanos 12.1: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”. Sendo assim, o altar não se restringe ao templo. A vida inteira torna-se liturgia. Comer, trabalhar, amar, descansar, relacionar-se, celebrar, tocar, sentir e viver são elementos de adoração ao Eterno. Nesse sentido, o corpo não é um estorvo para a alma; ele é a única via para que ela se expresse.

Note que, na antropologia judaica, o corpo é parceiro da alma, jamais inimigo. Para os gregos, a alma é superior e o corpo, inferior; o desejo é uma ameaça, a emoção é instável e apenas a razão pode servir de guia. Para os judeus, corpo e alma formam uma unidade indivisível. O desejo é energia criativa; a emoção é parte da razão, e a razão é parte do coração. É por isso que a espiritualidade é vivida no chão da vida enquanto a vida acontece, aqui e agora, em todo tempo e em qualquer lugar.

Na tentativa de romper com as explicações míticas do mundo, os gregos racionalizaram o pensamento e elegeram o intelecto como o centro do ser. Em contrapartida, a tradição judaica defende que a nossa centralidade habita no “lev” — o que traduzimos por “coração”. Como bem ensina o antigo provérbio: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4.23). Para o semita, o coração não é um poço de sentimentalismo; ele abriga a razão, a emoção, a vontade, a consciência e a decisão moral. Não há abismo entre o que se pensa e o que se sente.

A esta altura, você pode estar se perguntando: e o desejo? O desejo, caro leitor, também é parte da espiritualidade. Essa afirmação soa escandalosa porque a maioria de nós, especialmente no ambiente cristão, foi ensinada a ver o desejo como um inimigo. No entanto, os rabinos nos apresentam o conceito de “yetzer hara” — a inclinação ao impulso, à ambição e ao apetite. Segundo o Talmude, essa força não é má em si. Afinal, sem o “yetzer hara”, ninguém construiria uma casa, contrairia matrimônio, geraria filhos ou abriria um negócio. O desejo é pura força vital. É claro que ele precisa de orientação, mas o corpo é o palco legítimo onde essa energia se manifesta. E isso é profundamente bom, porque foi exatamente assim que Deus nos desenhou.

Agora, um presente para você que ama uma regrinha: o corpo é absolutamente indispensável para cumprir a Lei. Olhe com atenção para os Dez Mandamentos de Moisés e para o Sermão da Montanha de Jesus de Nazaré. Seria possível obedecer a qualquer um deles sem a matéria? A resposta é um sonoro não. Sem corpo, a espiritualidade é uma ilusão.

Esta crônica não nasce com a pretensão de convencer, mas de provocar. Certamente existem inúmeros caminhos para me refutar, inclusive dentro de outras vertentes judaico-cristãs. No entanto, divergências teológicas não alteram o fato de que o seu corpo é sagrado; e o é simplesmente porque Deus habita nele. O corpo é templo, morada e instrumento de santidade. Longe de qualquer moralismo engessado, enxergar a nossa matéria como habitação sagrada nos convoca ao cuidado. Não somos objetos descartáveis; somos casa. Daí nasce o dever do autorrespeito e do respeito mútuo, exorcizando toda e qualquer tentativa de objetificar o que é divino. Essa virada de chave transforma o nosso olhar sobre a saúde, o outro, a sexualidade, o sofrimento, a própria vida e a nossa espiritualidade. Na canção “Amor de Índio”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, eternizada na voz divinal de Milton Nascimento, ouvimos que “tudo que move é sagrado”. O seu corpo, caro leitor, é parte viva da aliança com o Eterno.


 

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