A VOLTA DO SOBRENATURAL DE ALMEIDA


O Brasil venceu o Japão por 2 a 1, mas não foi uma vitória: foi uma sessão espírita.

Carlo Ancelotti, esse técnico que parece ter sido contratado não pela CBF, mas por um laboratório de alquimia, decidiu que a seleção não teria uma identidade e sim várias. Uma seleção mutante, camaleônica, capaz de trocar de pele no intervalo como quem troca de camisa. Essa multiplicidade que salvou o Brasil em Houston.

O primeiro tempo foi tão sofrido que parecia escrito por um dramaturgo pessimista. O Japão, organizado como sempre, ajustou-se na parada para hidratação — porque até a água, hoje em dia, tem função tática — e encontrou um Brasil hesitante.

Paquetá saiu no intervalo, machucado e melancólico, como um personagem que abandona a peça antes do terceiro ato. E então Ancelotti, com a serenidade de quem pede um café, colocou Endrick e reorganizou tudo. O Brasil virou outro. Talvez até dois outros.

Bruno Guimarães, esse jogador que parece ter sido criado em laboratório para agradar técnicos italianos, manteve sua média sobrenatural: quatro assistências em quatro jogos. Desde Zico, ninguém fazia isso.

Martinelli, por sua vez, entrou como quem não quer nada e saiu como quem quer tudo. Jogou atrás, jogou na frente, jogou onde mandaram. E fez o gol da virada, nos acréscimos, como se estivesse apenas cumprindo uma tarefa doméstica: “Ah, sim, o gol, quase esqueci”.

Rayan cresceu no segundo tempo, abrindo o campo como quem abre uma janela para ventilar a alma da seleção.

Casemiro empatou de cabeça, num salto que parecia movido por forças ocultas, talvez o mesmo Sobrenatural de Almeida que havia tirado férias no primeiro tempo.

E assim o Brasil virou. Virou porque mudou. Virou porque não tem medo de ser outro. Virou porque Ancelotti, esse técnico que conversa com o futebol como quem conversa com um velho amigo, sabe que identidade fixa é para quem não precisa vencer. No domingo, em Nova Jersey, virá Noruega ou Costa do Marfim. Dois estilos, duas histórias, duas possibilidades de sofrimento.

A seleção mutante segue em frente e nós seguimos com ela, torcendo para que, no próximo jogo, o Sobrenatural de Almeida esteja do nosso lado e que o VAR emocional, seja lá o que for, finalmente funcione.


 

Comentários

  1. Mesmo sem entender nada de futebol, adorei a crônica, bem humorada, leve e vendo os fatos por novas perspectivas. Parabéns.

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