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O PARADOXO DO PERTENCER

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O meu desafio, nestes 24 anos de cristandade, foi criar vínculos dentro da comunidade cristã. Sempre tive dificuldade em estabelecer conexões – aliás, só fui me preocupar com isso depois dos 30 anos. Entretanto, a vocação filosófica me levou a refletir sobre duas questões que desenvolvo nas próximas linhas. A comunidade cristã, ou seja, a igreja, é exclusiva, não inclusiva. A Igreja universal – e aqui não me refiro à do Macedo – é a comunidade formada por aqueles que Deus aceitou em Jesus, efetivamente chamados e santificados pelo seu Espírito. Já a igreja local, que os teólogos chamam de igreja militante, possui autoridade, por meio de seus presbíteros, para aceitar ou não determinada pessoa, não sendo obrigada a receber todo mundo. Embora exerça função social, a igreja é uma instituição privada, e é bom que seja assim. O segundo ponto está no fato de que, em um grupo, não se entra simplesmente; somos “entrados”. O querer não é poder – na maioria dos grupos cristãos, o querer impo...

A EDUCAÇÃO SUBMISSA AO MUNDO DO TRABALHO

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O magistério sempre foi a minha paixão. Amo quando sou chamado de professor. Entretanto, tenho me afastado cada vez mais da sala de aula, e isso se deve à crescente burocratização do ensino. A educação deixou de ser uma das mais belas artes livres para se tornar a parte submissa na relação entre o Ministério da Educação e as secretarias de educação dos estados e dos municípios. A partir daqui, recorro à Filosofia, enquanto disciplina, tomando como base a proposta do filósofo alemão do século XX Josef Pieper, em seu livro “Que é filosofar?”. Pieper afirma que o filosofar consiste em uma ação que ultrapassa o mundo do trabalho. Esse mundo é definido pelo objetivo de realizar aquilo que ele chamou de “utilidade comum”. Assim, faz parte da essência do ato filosófico não pertencer a esse universo das utilidades e eficiências, da necessidade e do rendimento. A filosofia transcende o mundo do trabalho; por isso, segundo o autor, a questão filosófica atravessa o limiar que encerra o cotidian...

OS DEUSES DO OLIMPO, OU MELHOR, DO STF E MALU GASPAR

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Na faculdade de Direito, ouvi uma frase que faz muito sentido: os advogados pensam que são deuses, já os juízes têm certeza de suas divindades. Parece-me que os juízes do STF, que chamamos de ministros, revestem-se de uma couraça divina – para além da toga – que eles não têm. Os movimentos dos integrantes da suprema corte são limitados pela Constituição Federal – livro este que eles não costumam seguir, já que uma das missões divinais dos ministros é a interpretação constitucional. A ética é uma das premissas balizadoras de um magistrado. Todavia, o que é ética, não é mesmo? Existe a ética que emana do espírito das leis e aquilo que os ministros pensam ser uma conduta ética. Os juízes do Supremo Tribunal Federal normalizam comportamentos antiéticos. Entre o Olimpo e a terra está a imprensa para a nossa sorte. A jornalista Malu Gaspar, consciente de sua missão, resolveu enfrentar os deuses do STF. No entanto, muitos dos seus colegas, calaram-se e não saíram em sua defesa. Cadê as fe...

A ÚLTIMA DO ANO

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  Na minha última sessão com a Cinthia, realizada na semana do Natal, fizemos um balanço de 2025 e uma possível previsão para 2026, que ela chamou, com inteligência, de intencionalidades. A minha miopia, associada ao astigmatismo, impede que eu enxergue longe — e isso se reflete na dificuldade de fazer planos a longo prazo. Em linhas gerais, 2025 foi um bom ano, apesar das perdas: perdi o emprego, a namorada, a avó materna e uma tia. Em compensação, tive a oportunidade de aprender alguma coisa a partir dessas ausências. O fato de não ser engajado faz com que eu não espere nada de 2026. Não tenho prazer na falta de esperança. É triste não ter expectativa. Eu seria um bom ateu, se não fosse cristão. Embora não espere nada do próximo ano, desejo me tornar um ser humano melhor — melhor para mim, para minha família e para a sociedade. Não fazer planos a longo prazo me obriga a viver o hoje. Os meus óculos só alcançam o crepúsculo. Destarte, é impossível não lembrar de João, quando, ...

DR DE RÉVEILLON

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  Os últimos dias de dezembro são aquele momento em que todo mundo resolve fazer balanço do ano. Tem gente que fica introspectiva, tem gente que fica emotiva, e tem gente que só fica... O patrão, para fazer média, almoça com os empregados. O genro janta na casa da sogra fingindo que gosta da maionese com uva-passa. E os casais, claro, discutem a relação. — Você é feliz? — Nossa, mas por que essa pergunta logo cedo? — Não importa. Responda! — Amor, essa é uma pergunta muito complexa. Sou professor de filosofia, esqueceu? — Basta dizer sim ou não. — Amor, para Aristóteles a felicidade é o propósito último da vida. — Arthurzinho, não quero saber de Aristóteles. Quero saber de você. — Pois eu concordo com ele, amor. O meu propósito de vida é me casar com você. — Ah, você está falando isso só para me agradar. Não sei qual é a dificuldade de as mulheres acreditarem nas afirmações que os homens fazem. O companheiro sempre tenta agradar a mulher. — Amor, o meu mai...

QUAL É A BOA?

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Quem não gosta de ouvir uma boa notícia? A boa notícia entra suavemente pelos ouvidos, desce ao coração e afaga a alma. Todo mundo já se alegrou com a notícia do nascimento de um filho, com o aumento de salário, com um “amo você”, com a classificação em um concurso tão esperado e até mesmo com o resultado da Mega da Virada. Notícia boa é notícia boa, não importa a época. Certa vez, na região da Judeia, alguns guardadores de rebanho estavam trabalhando quando um anjo desceu onde eles estavam e lhes trouxe uma boa notícia: — Não tenham medo; eis que trago boa-nova de grande alegria, que será para todo o povo. A boa notícia não se limitava aos pastores. Todos que a ouvissem ficariam alegres. O anjo prosseguiu: — Hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Depois, o anjo explicou como os guardadores identificariam aquela criança, que estava deitada em uma manjedoura. A data em que Jesus nasceu não importa. Discutir se o menino veio ao mundo ou não ...

CASO DE FAMÍLIA... DO XANDÃO

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Xandão entrou em casa triunfante, como quem acabou de salvar a democracia pela 47ª vez no mês: — Amor, amor! Condenei uns milicos hoje. Dei uma arrumada na pátria. Vivi, acostumada a conviver com um marido que acorda achando que é o último guardião da civilização ocidental, sorriu: — Sério, Alê? Que fofo. Você sempre tão empenhado em salvar o Brasil... Animada, ela também trouxe sua novidade: — O Dani, sabe? Aquele banqueiro que vive achando que é discreto… vai me pagar R$ 130 milhões para defendê-lo. Xandão quase deixou cair a aura de divindade institucional: — O que ele fez para pagar tudo isso? — Ah, nada demais! Só repassou R$ 12,2 bilhões em créditos para o BRB. Coisa pequena. Mas aí vêm aqueles técnicos do Banco Central, sempre querendo fiscalizar. Gente chata. A careca de Xandão começou a brilhar de tanto suor. Depois de alguns minutos pensativo, decidiu ligar para um colega: — Dias, meu querido, sobe aquele processo do banco para o Supremo e decreta sigilo t...