A EDUCAÇÃO SUBMISSA AO MUNDO DO TRABALHO


O magistério sempre foi a minha paixão. Amo quando sou chamado de professor. Entretanto, tenho me afastado cada vez mais da sala de aula, e isso se deve à crescente burocratização do ensino. A educação deixou de ser uma das mais belas artes livres para se tornar a parte submissa na relação entre o Ministério da Educação e as secretarias de educação dos estados e dos municípios.

A partir daqui, recorro à Filosofia, enquanto disciplina, tomando como base a proposta do filósofo alemão do século XX Josef Pieper, em seu livro “Que é filosofar?”. Pieper afirma que o filosofar consiste em uma ação que ultrapassa o mundo do trabalho. Esse mundo é definido pelo objetivo de realizar aquilo que ele chamou de “utilidade comum”. Assim, faz parte da essência do ato filosófico não pertencer a esse universo das utilidades e eficiências, da necessidade e do rendimento. A filosofia transcende o mundo do trabalho; por isso, segundo o autor, a questão filosófica atravessa o limiar que encerra o cotidiano burguês do trabalho.

Desse modo, o saber filosófico não recebe legitimação a partir de sua utilidade, de sua aplicabilidade, de sua função social ou de sua referência à “utilidade comum”. A filosofia tem valor em si mesma, na medida em que se posiciona nessa transcendência do mundo do trabalho.

Não obstante, ao se deparar com a burocratização do ensino, a filosofia perde sua liberdade acadêmica. Em seu ensaio, Josef Pieper escreveu que a liberdade acadêmica se perde exatamente no mesmo grau em que se perde o caráter filosófico do estudo, isto é, à medida que a pretensão de totalidade do mundo do trabalho conquista o espaço das escolas e universidades. Para Pieper, a raiz metafísica do problema é a politização — aquilo que chamei acima de burocratização do ensino.

Por fim, seguindo o pensamento do filósofo supracitado, a transcendência da filosofia para além do mundo da “utilidade comum” não pode ser formada nem regulada pelo Estado. A administração do bem comum profissionaliza a educação e o saber filosófico, recolocando-os no mundo do trabalho. É por essa razão que, cada vez mais, confundimos escolas e universidades com empresas.


#Educação

#Filosofia

#Magistério

#LiberdadeAcadêmica

#EscolaNãoÉEmpresa

#Crônica

#Reflexão

#Professor

#Burocracia

#PensarÉResistir

#Humanidades

#JosefPieper

#EnsinoCrítico

#EducaçãoTransformadora


 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

É O AMOR... E A POLÍTICA

ACADEMIA GUAÇUANA DE LETRAS: 26 ANOS DE ORGANIZAÇÃO

SEM TEMPO PARA VIVER