QUANDO A TRADUÇÃO COMPLICA A LEITURA
Há muito tempo eu não tirava o dicionário da estante, e hoje
precisei recorrer a dois. Depois de concluir a leitura de Tratado sobre a
oração, de John Knox, publicado pela editora Heziom, emendei em Eu via Satanás
cair como um relâmpago, de René Girard, pela editora Paz & Terra. O texto
de Knox, traduzido por Danny Medeiros Charão, foi escrito no século XVI,
enquanto o de Girard, traduzido por Martha Gambini, surgiu no final do século
XX, mais precisamente em 1999.
Cada obra cumpre seu propósito: o Tratado sobre a oração é uma
catequese reformada, e Eu via Satanás cair como um relâmpago é uma obra
antropológica que aborda aspectos religiosos, além de desenvolver a ideia de
mimetismo, central na produção literária de Girard. Não quero aqui discutir os
textos em si, mas sim o papel do tradutor.
Tenho a impressão de que, muitas vezes, alguns tradutores se
limitam a verter palavra por palavra, sem se preocupar com o que o autor
realmente quis transmitir e sem considerar o contexto histórico, sociológico e
cultural da época da obra. Traduções assim tornam-se truncadas e deixam a
sensação de que algo está faltando. Outros, por sua vez, parecem querer ser
mais rebuscados que os próprios autores. Um livro técnico como o de René Girard
acabou se tornando difícil porque a tradutora quis aparecer mais do que o autor
— em outras palavras, precisei usar o dicionário para traduzir a tradução.
O tradutor pode elevar ou destruir uma obra. O bom tradutor não
apenas converte textos de um idioma para outro, preservando significado, estilo
e contexto cultural; ele encarna a habilidade de um pintor que retrata na tela
a mais bela paisagem que seus olhos conseguem alcançar. Sem romantizar o
ofício, a tradução é, sim, uma obra de arte. Ainda é cedo para pensar nas
traduções feitas por inteligência artificial, mas isso fica para outra crônica.
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