O PESCADOR E OS DOIS AMOR: ENTRE A TERRA E O MAR DA EXISTÊNCIA


Dorival Caymmi, ao cantar que “o pescador tem dois amor”, oferece mais do que uma simples imagem poética: revela uma metáfora existencial que pode ser lida filosoficamente. O fato de o amor permanecer no singular, mesmo quando duplicado, sugere que não se trata de uma pluralidade de objetos, mas de uma essência una que se manifesta em diferentes dimensões. Assim como em Platão, que distingue entre as múltiplas aparências e a unidade da Ideia, Caymmi nos mostra que o amor não se divide, apenas se desdobra.

O bem da terra representa o amor enraizado, concreto, ligado à estabilidade e ao cotidiano, enquanto o bem do mar simboliza o amor fluido, infinito, que nos arrasta para além de nós mesmos. Essa dialética entre permanência e movimento, finitude e infinitude, aproxima-se da reflexão heideggeriana sobre o ser: estamos sempre lançados no mundo, entre o que nos prende e o que nos abre ao horizonte. O amor, nesse sentido, é tanto risco quanto promessa, pois nos coloca diante da alteridade e nos transforma.

Quando Caymmi canta que o amor se torna mar, ele sugere que o sentimento humano, ao nos inundar, transcende a medida individual e nos lança no oceano da existência. Merleau-Ponty poderia dizer que esse mar é a própria carne do mundo, onde o sujeito se dissolve e se reencontra em relação com o outro. Amar é ser levado pelas ondas, não como perda de si, mas como abertura radical.

Assim, a vida do pescador torna-se metáfora da condição humana: lançar redes no mar é buscar sentido na vastidão da existência. O amor, em sua concretude, já é o bastante, porque nele se encontra a síntese entre o que nos ancora e o que nos transcende. Caymmi, com sua simplicidade lírica, nos lembra que o amor não é pluralidade de experiências isoladas, mas unidade de essência que se revela ora na terra firme, ora no mar aberto, sempre nos conduzindo ao mistério da vida.

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