A UTOPIA DA IGUALDADE
Uma das mais belas declarações positivistas encontra-se no inciso I
do artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5
de outubro de 1988, ao afirmar que homens e mulheres são iguais em direitos e
obrigações. Tal ideal, contudo, revela-se como uma utopia diante da realidade
de um país tão desigual, em que a igualdade se concretiza apenas nos termos da
Constituição.
Apesar da declaração constitucional e das leis
infraconstitucionais, mulheres vítimas de violência sexual continuam
desprotegidas pela justiça. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que
uma mulher é assassinada por alguém próximo a cada 10 minutos. Segundo o
Itamaraty, aumentaram os registros de violência contra brasileiras no exterior.
Em contrapartida, a Câmara da Itália aprovou a pena de prisão perpétua para
casos de feminicídio em seu Código Penal, embora ainda não se saiba se haverá
sanção presidencial.
O avanço legal e o número crescente de legislações que protegem os
mais vulneráveis são incontestáveis. No entanto, por que a violência entre os
diferentes continua a crescer?
A Carta Magna de 1988 nasceu como resposta direta a anos de
opressão vividos durante a ditadura militar (1964–1985), tornando-se um marco
da redemocratização e da garantia dos direitos fundamentais. O inciso I do
artigo 5º (“homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”) foi
resultado de décadas de luta das mulheres brasileiras contra a desigualdade
legal e social, culminando na mobilização durante a Assembleia Constituinte.
Entretanto, os constituintes partiram de uma premissa equivocada.
Eles buscaram eliminar as diferenças, como se fossem algo em
expansão — o que não corresponde à realidade. O transgênero é o maior símbolo da
luta pela igualdade. O direito ao voto feminino (1932), o Estatuto da Mulher
Casada (1962), os movimentos feministas das décadas de 1970 e 1980, a
participação na Constituinte (1987–1988) e as mobilizações populares promoveram
a igualdade na tentativa de fazer desaparecer as diferenças. Contudo, para que
os direitos sejam respeitados, é necessário reconhecer que a diferença não é a
vilã da história.
O historiador René Girard afirma que se dá ouvidos à celebração enganosa das diferenças, cada vez mais florescentes em nossas sociedades, não porque as diferenças reais estejam crescendo, mas porque estão desaparecendo. Nesse sentido, a utopia da igualdade pode se tornar uma forma de violência na busca por uma sociedade mais justa, fraterna e harmoniosa. Portanto, é o desaparecimento das diferenças – que o é o que tenho chamado de a utopia da igualdade – que promove a violência.

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