A ILUSÃO DA NEUTRALIDADE LINGUÍSTICA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que até hoje não domina
plenamente a norma culta da Língua Portuguesa, realizou um gesto significativo
ao sancionar a lei que proíbe o uso da linguagem neutra na administração
pública. O debate em torno dessa questão costuma opor inclusão e clareza: de um
lado, a linguagem neutra busca representar pessoas não binárias e combater o
sexismo; de outro, críticos – como eu – argumentam que ela pode gerar
dificuldades de compreensão, afastamento da norma culta e problemas legais. Não
por acaso, o governo brasileiro decidiu restringir seu uso em documentos
oficiais e repartições públicas.
Em termos práticos, a chamada linguagem não binária procura evitar
a marcação de gênero masculino ou feminino. Exemplos comuns incluem:
todos/todas → todes; amigos/amigas → amigues; pronomes como ele/ela → elu.
Entre os argumentos de seus defensores está a ideia de que a língua
é dinâmica e, consequentemente, neutra. Contudo, essa afirmação perde força
quando analisada à luz da teoria de Saussure. O linguista distingue claramente
entre “fala” e “língua”: a fala é individual, criativa e mutável, enquanto a
língua constitui um sistema coletivo e normativo, cujo valor depende da
estabilidade das relações entre os signos. Se fosse tão fluida quanto se alega,
a comunicação perderia sua inteligibilidade, já que cada signo só existe em
função dos demais dentro de uma rede relativamente fixa.
Em resumo, a língua não é um terreno livre de regras: sua força
está na estabilidade que garante a comunicação. A tentativa de impor a
neutralidade ignora essa estrutura e compromete a clareza, razão pela qual a
preservação da norma culta se mostra essencial. A língua só cumpre seu papel
quando preserva a clareza; tentar torná-la neutra é, na verdade, torná-la
incompreensível.
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